1.    INTRODUÇÃO

1.1.     Preâmbulo

1.2.     Antecedentes

1.3.     Abordagem de Risco em Obstetrícia

1.4.     Definição de Parto Normal

1.5.     Objetivo da Assistência   ao Parto Normal, Tarefas do Prestador de Serviços

1.6.     O Prestador de Serviços no Parto Normal

 

2.    ASPECTOS GERAIS DA ASSISTÊNCIA AO PARTO

2.1.     Avaliação

2.2.     Procedimentos de Rotina

2.3.     Nutrição

2.4.     Local de Parto

2.5.     Apoio durante o Parto

2.6.     Dor Durante o trabalho de Parto

2.6.1.    Métodos não farmacológicos de alívio da dor

2.6.2.    Alívio da Dor durante o trabalho de parto por meios farmacológicos

2.7.     Monitoramento Fetal Durante o Trabalho de Parto

2.7.1.    Avaliação do Líquido Amniótico

2.7.2.    Monitoramento da Freqüência Cardíaca Fetal

2.7.3.    Exame do sangue do escalpo fetal

2.7.4.    Comparação entre a ausculta e o monitoramento eletrônico fetal

2.8.     Higiene

 

3.    ASSISTÊNCIA DURANTE O PRIMEIRO ESTÁGIO DO PARTO

3.1.     Avaliação do Início do Trabalho de Parto

3.2.     Posição e Movimento durante o Primeiro Estágio do trabalho de parto

3.3.     Exame Vaginal

3.4.     Monitoramento da Progressão do Trabalho de Parto

3.5.     Prevenção do Trabalho de Parto Prolongado

3.5.1.    Amniotomia Precoce

3.5.2.    Infusão Intravenosa de Ocitocina

3.5.3.    Administração Intramuscular de ocitocina


 

4.    ASSISTÊNCIA DURANTE O SEGUNDO ESTÁGIO DO PARTO

4.1.     Antecedentes Fisiológicos

4.2.     Início do Segundo Estágio

4.3.     Início do Puxo durante o Segundo Estágio

4.4.     Procedimento do Puxo durante o Segundo Estágio

4.5.     Duração do Segundo Estágio

4.6.     Posição Materna durante o Segundo Estágio

4.7.     Cuidados com o Períneo

4.7.1.    Proteção do Períneo Durante o Parto

4.7.2.    Laceração de períneo e episiotomia

 

5.    ASSISTÊNCIA DURANTE O TERCEIRO ESTÁGIO DO PARTO

5.1.     Antecendentes

5.2.     Uso Profilático de Ocitócitos

5.3.     Tração Controlada do Cordão

5.4.     Comparação entre os Manejos Ativo e Expectante do terceiro Estágio

5.5.     Momento para o Clampeamento do Cordão

5.6.     Cuidados Imediatos do Recém-Nascido

5.7.     Cuidados da Mãe Imediatamente Após a Dequitação da Placenta

 

6.    CLASSIFICAÇÃO DE PRÁTICAS NO PARTO NORMAL

6.1.     Práticas que são Demonstradamente Úteis e que Devem ser Estimuladas

6.2.     Práticas Claramente Prejudiciais ou Ineficazes e que devem ser Eliminadas

6.3.     Práticas em Relação às quais Não Existem Evidências Suficientes para Apoiar uma Recomendação Clara e que devem Ser Utilizadas com Cautela até que Mais Pesquisas Esclareçam a Questão

6.4.     Práticas Freqüentemente Utilizadas de Modo Inadequado

 

7.    REFERÊNCIAS

 


MATERNIDADE SEGURA

Assistência ao Parto Normal: Um Guia Prático (OMS 1996).

 

1.  INTRODUÇÃO

 

1.1.                  Preâmbulo

 

  

Apesar de muitos anos de consideráveis debates e pesquisas, o conceito de "normalidade" no parto não é padronizado ou universal. Nas últimas décadas, vimos uma rápida expansão no desenvolvimento e uso de uma variedade de práticas desenhadas para iniciar, corrigir a dinâmica, acelerar, regular ou monitorar o processo fisiológico do parto, com o objetivo de obter melhores resultados de mães e recém-nascidos, e algumas vezes para racionalizar padrões de trabalho, no caso do parto hospitalar. Em países desenvolvidos onde essas atividades se generalizaram, questiona-se cada vez mais se esses altos níveis de intervenção são valiosos ou desejáveis. Ao mesmo tempo, os países em desenvolvimento estão procurando fazer com que todas as mulheres tenham acesso a uma assistência obstétrica segura, a um preço a seu alcance. A adoção sem críticas de uma variedade de intervenções inúteis, inoportunas, inadequadas e/ou desnecessárias, com muita freqüência mal avaliadas, é um risco incorrido por muitas pessoas que tentam melhorar os serviços obstétricos. Depois de estabelecer uma definição de trabalho de "parto normal", este documento identifica as práticas mais comuns utilizadas durante o trabalho de parto e tenta estabelecer algumas normas de boas práticas para a conduta do trabalho de parto sem complicações.

O relatório aborda questões de assistência ao parto normal, independentemente do seu local ou nível de assistência. Suas recomendações sobre as intervenções que são ou deveriam ser utilizadas para apoiar os processos do parto normal não são específicas para um país ou região. Existem enormes variações em todo o mundo em relação ao local e nível de assistência, a sofisticação dos serviços disponíveis e ao tipo de prestador de serviços no parto normal. O objetivo deste relatório é simplesmente examinar as evidências pró ou contra algumas das práticas mais comuns e fazer recomendações, fundamentadas nas melhores evidências disponíveis, quanto ao seu papel na assistência ao parto normal. Em 1985, uma reunião da região européia da Organização Mundial da Saúde (OMS), e da Organização Pan-Americana de Saúde - Escritório Regional para as Américas, em Fortaleza, Brasil, fez uma série de recomendações baseadas numa variedade similar de práticas (OMS 1985). Apesar disso, e apesar da ênfase rapidamente crescente na medicina baseada em evidências, muitas dessas práticas continuam a ser comuns, sem considerar devidamente seu valor para as mulheres ou seus filhos. Esta é a primeira vez em que uma reunião envolvendo peritos em obstetrícia de todas as regiões da OMS teve a oportunidade de esclarecer, à luz dos conhecimentos atuais, qual é, em sua opinião, o papel de tais práticas na assistência ao parto normal.

Após discutir as evidências, o grupo de trabalho classificou suas recomendações sobre as práticas relacionadas ao parto normal em quatro categorias:

 

A- Práticas demonstradamente úteis e que devem ser estimuladas

B- Práticas claramente prejudiciais ou ineficazes e que devem ser eliminadas

C- Práticas em relação às quais não existem evidências suficientes para apoiar uma recomendação clara e que devem ser   utilizadas com cautela, até que mais pesquisas esclareçam a questão

D- Práticas freqüentemente utilizadas de modo inadequado.

 

 

1.2.                  Antecedentes 

 

A primeira questão a ser esclarecida é o significado com que este documento emprega a expressão "parto normal" (veja a seção 1.4, a seguir). É crucial ser específico, a fim de evitar erros de interpretação. Uma frase freqüentemente citada conclui que "só é possível dizer que um , parto é normal retrospectivamente". Esta noção muito difundida fez com que obstetras em muitos países concluíssem que a assistência durante o parto normal deveria ser similar à assistência ao parto complicado. Este conceito apresenta várias desvantagens: o potencial para transformar um evento fisiológico normal num procedimento médico; a interferência com a liberdade da mulher de viver a experiência do nascimento de seus filhos à sua própria maneira, no local de sua escolha; a indução de intervenções desnecessárias; e, devido à necessidade de economias de escala, sua aplicação requer uma concentração de grande número de parturiente em hospitais  tecnicamente bem equipados, com os custos decorrentes.  Com o fenômeno global de crescente urbanização, muito mais mulheres estão dando à luz em maternidades, quer tenham partos normais ou complicados. Existe uma tentação para  tratar todos os partos rotineiramente com o mesmo alto grau de intervenção exigido por aqueles que apresentam complicações. Infelizmente, isto tem uma ampla variedade de efeitos negativos, alguns com implicações sérias. Variam do simples custo em tempo, treinamento e equipamentos  exigido por muitos dos métodos utilizados ao fato que muitas mulheres podem não procurar a assistência de que necessitam devido a preocupações sobre o alto nível de intervenção. As mulheres e seus bebês podem ser prejudicados em conseqüência de práticas desnecessárias. O funcionamento do pessoal de serviços de referência pode diminuir de qualidade, caso sua capacidade de atender mulheres com patologias sérias, que necessitam de toda a sua atenção e experiência, for assoberbada pelo grande número de partos normais que recebem. Por sua vez, o manejo desses partos normais freqüentemente obedece a "protocolos padrão", que somente se  justificam na assistência a mulheres com complicações de parto.  Este relatório não é um apelo em favor de nenhum local particular para o parto, pois reconhece a realidade de uma variedade de locais adequados, desde o domicílio até o centro de referência terciário, dependendo da disponibilidade e da necessidade. Procura simplesmente em  que consiste uma boa assistência ao parto normal, onde quer que ele ocorra. O ponto de partida para o resultado seguro de qualquer parto, a avaliação do risco, requer um estudo individual especial, mas, antes de discutir os componentes da assistência obstétrica, deve-se fazer uma breve introdução desse conceito.

 

1.3.                  Abordagem de Risco em Obstetrícia 

 

 

Uma avaliação das necessidades e daquilo que poderia ser chamado "potencial de parto" constitui a base de uma boa tomada de decisão em relação ao parto, o início de toda boa  assistência. Aquilo que é conhecido como "abordagem de risco" vem há décadas dominando as decisões sobre o parto, seu local, seu tipo e qual o prestador de serviços envolvido (Enkin 1994).  O problema com muitos desses sistemas é que eles fizeram com que um número desproporcionadamente alto de mulheres fosse classificado como "de risco", com o conseqüente risco de um alto nível de intervenção no parto. Outro problema é que, apesar de uma classificação escrupulosa, a abordagem de risco notadamente não consegue identificar muitas das mulheres que realmente precisarão de assistência para complicações de parto. Similarmente, muitas mulheres identificadas como "de alto risco" têm partos perfeitamente normais, sem qualquer problema. Mesmo assim, alguma forma de avaliação inicial e continuada da probabilidade que uma mulher tenha um parto normal é crucial para evitar e/ou identificar o início de complicações e as decisões que devem ser tomadas sobre o fornecimento de uma assistência adequada.

Assim, este relatório tem início com a questão da avaliação da parturiente. A avaliação dos fatores de risco e o pré-natal, e pode ser feita de um modo relativamente simples, determinando-se a idade, altura e paridade da mãe, indagando sobre complicações na sua história obstétrica, como cesarianas ou mortes fetais anteriores, e investigando a presença de anormalidades na gravidez atual, como pré-eclâmpsia, gestação múltipla, hemorragia posição anormal ou anemia severa (De Groot et ai 1993). A avaliação de risco também pode diferenciar de modo mais extenso fatores de risco e nível de assistência individuais (Nasah 1994) Nos Países Baixos, elaborou-se uma lista de indicações médicas para a assistência especializada diferenciando baixo, médio e alto risco (Treffers 1993). Em muitos países e instituições onde se faz uma distinção entre gestações de alto e de baixo risco, utilizam-se listas do mesmo tipo. A eficácia de um escore de risco é medida por sua capacidade de discriminar entre mulheres de alto e de baixo risco, ou seja, por sua sensibilidade, especificidade, e valores preditivos positivo e negativo (Rooney 1992). É difícil obter números exatos sobre o desempenho, discriminatório desses escores de risco, porém, com base nas informações disponíveis, podemos concluir que é possível fazer uma distinção razoável entre gestações de alto e baixo risco, em países desenvolvidos e em desenvolvimento (Van Alten et ai 1989, De Groot et al 1993). A definição do risco obstétrico por fatores demográficos, como paridade e altura materna, tem baixa especificidade e portanto faz com que muitos partos não complicados sejam rotulados como de alto risco. A especificidade de complicações na história obstétrica ou na gestação atual e muito maior. Entretanto, mesmo uma assistência pré-natal e uma avaliação de risco de alta qualidade não podem substituir uma vigilância adequada da mãe e do feto durante o trabalho de parto.

 

A avaliação de risco não é uma medida a ser utilizada uma única vez, mas um procedimento continuado ao longo da gestação e do trabalho de parto. A qualquer  momento complicações precoces podem tornar-se aparentes, induzindo a decisão de encaminhar a mãe a um nível mais complexo de assistência.

 

Durante o pré-natal, deve-se fazer um planejamento, com base nessa avaliação de risco identificando o local do parto, e o tipo de profissional que deverá estar envolvido. Este planejamento deve ser feito em conjunto com a gestante, e comunicado a seu marido ou companheiro. Em muitos países também é aconselhável que a família tenha conhecimento dele, porque pode ser a instância de tomada de decisões importantes. Em sociedades que respeitam o sigilo, as regras são outras: a família somente pode ser informada pela própria paciente. O plano deve estar disponível no início do trabalho de parto. Neste momento, faz-se uma reavaliação de risco incluindo um exame físico para avaliar o estado da mãe e do feto, a posição e apresentação deste último e os sinais de trabalho de parto existentes. Se não foi feito um pré-natal, a avaliação de risco deve ser feita por ocasião do primeiro contato com os prestadores de serviço, durante o trabalho de parto. O trabalho de parto de baixo risco tem início entre 37 e 42 semanas completas. Se nenhum fator de risco for identificado, o trabalho de parto pode ser considerado de baixo risco.

 

1.4.                  Definição de Parto Normal

 

     Na definição de parto normal, dois fatores devem ser considerados: o risco da gestação e evolução do trabalho de parto. Como já foi discutido, o valor preditivo de escores de risco está longe de ser 100%- uma gestante de baixo risco no início do trabalho de parto pode vir a ter complicações. Por outro lado, muitas gestantes de alto risco ao final têm uma evolução sem complicações. O foco primário deste documento é o grande grupo de gestações de baixo risco.

 

Definimos parto normal como de início espontâneo, baixo risco no início do trabalho de parto, permanecendo assim durante todo o processo, até o nascimento. O bebê nasce espontaneamente, em posição cefálica de vértice, entre 37 e 42 semanas completas de gestação. Após o nascimento, mãe e filho em boas condições.

Entretanto, como o trabalho de parto e o parto de muitas gestantes de alto risco têm um curso normal, várias recomendações deste documento também se aplicam à assistência dessas mulheres.

 

Quantos nascimentos, de acordo com essa definição, podem ser considerados normais? Isto dependerá em grande parte das taxas regionais e locais de avaliação de risco e de encaminhamento. Estudos sobre "assistência alternativa ao parto" em países desenvolvidos mostram uma taxa média de 20 de encaminhamentos durante o trabalho de parto, e a mesma proporção de encaminhamentos no decorrer da gestação. Em multíparas, as taxas de encaminhamento são muito menores do que em nulíparas (MacVicar et al 1993, Hundley et al 1994, Waldenstrôm et al 1996). Nesses estudos, a avaliação de risco geralmente é muito meticulosa, o que leva ao  encaminhamento de muitas mulheres que, posteriormente, têm um trabalho de parto normal. Noutras circunstâncias, o número de encaminhamentos pode ser mais baixo. No Quênia, verificou-se que 84,8% de todos os trabalhos de parto não apresentavam complicações (Mati et al 1983). Em geral, entre 70 e 80% de todas as gestantes podem ser consideradas de baixo risco no  início do trabalho de parto.

  

1.5.                  Objetivo da Assistência   ao Parto Normal, Tarefas do Prestador de Serviços

 

O objetivo da assistência é ter uma mãe e uma criança saudáveis, com o menor nível possível de intervenção compatível com a segurança. Esta abordagem implica em:

 

No parto normal, deve existir uma razão válida para interferir no processo natural.

  

As tarefas do prestador de serviços* são quatro:

  

·        Dar apoio à mulher, ao seu parceiro e à sua família durante o trabalho de parto, no momento  do nascimento e no pós-parto.

·        Observar a parturiente; monitorar o estado fetal e posteriormente o do recém-nascido; avaliar os fatores de risco; detectar os problemas precocemente.

·        Realizar intervenções, como amniotomia e episiotomia, se necessário; prestar os cuidados ao recém-nascido após o nascimento,

·        Encaminhar a parturiente a um nível de assistência mais complexo, caso surjam fatores de risco ou complicações que justifiquem.

 

Isto pressupõe um fácil encaminhamento a um nível mais complexo de assistência. Em  111 muitos países, isto não ocorre; neste caso, são necessárias regras especiais para permitir que os  prestadores de assistência primária realizem as tarefas salvadoras necessárias. Isto implica treinamento adicional e adaptação da legislação vigente, dando respaldo aos prestadores de serviço  que as executam. Também implica acordo entre os prestadores de serviços quanto a suas responsabilidades (Kwast 1992, Fathalla 1992).

 

O termo "prestador de serviços" refere-se ao profissional de saúde.

 

1.6.                  O Prestador de Serviços no Parto Normal 

 

O prestador de serviços de parto, ou parteiro*, deve ser capaz de realizar as tarefas cima mencionadas. Deve ter um treinamento adequado e uma variedade de habilidades obstétricas apropriadas ao nível de assistência. Essas habilidades devem permitir, minimamente, que o prestador de serviços avalie fatores de risco, reconheça o início de complicações, execute observações maternas e monitore o estado do feto e do recém-nascido. O prestador de serviços deve ser capaz de executar intervenções básicas essenciais e de cuidar do recém-nascido após o seu nascimento. Deve ser capaz de encaminhar a mãe ou o recém-nascido a um nível mais complexo de assistência, caso surjam complicações que exijam intervenções acima de sua competência.Finalmente, e com igual importância, o prestador de serviços deve ter paciência e empatia necessárias para dar apoio à parturiente e à sua família. Quando possível, o prestador de serviços deve procurar fornecer a continuidade da assistência pré-natal, ao parto e no puerpério; se esta continuidade não puder ser pessoa, deve haver uma continuidade por meio da organização da assistência.Vários tipos de profissional podem ser considerados para executar essas tarefas:

 

- O ginecologista-obstetra: esses profissionais certamente  são capazes de lidar com os aspectos técnicos das diferentes tarefas do prestador de serviço; espera-se que também tenham a empatia necessária. Em geral, os obstetras devem dedicar sua atenção a mulheres de alto risco e ao tratamento de complicações sérias. Normalmente são responsáveis por cirurgias obstétricas. Devido a seu treinamento e atitude profissional, podem ser mais propensos- na verdade, freqüentemente são forçados a isso pelas circunstâncias- a intervir mais freqüentemente do que enfermeiras-parteiras. Em muitos países, especialmente em desenvolvimento, o número de obstetras é limitado e sua distribuição é desigual, concentrando-se em cidades de maior porte. É pouco provável que suas responsabilidades pelo manejo de complicações importantes deixem-lhe muito tempo disponível para dar assistência e apoio à parturiente e à sua família durante todo o trabalho de parto normal.

 

- O generalista: o treinamento teórico e prático em obstetrícia deste profissional é muito variável. Certamente existem generalistas bem treinados que são capazes de realizar as tarefas do prestador de serviços de assistência obstétrica primária e, portanto, um parto normal. Entretanto, em gral, a obstetrícia é apenas uma pequena parte de seu treinamento e das suas responsabilidades quotidianas, e portanto é difícil manter seus conhecimentos e habilidades práticas atualizadas. Em países em desenvolvimento, os generalistas normalmente dedicam grande parte de seu tempo à obstetrícia, sendo portanto bastante experientes, mas dedicam mais atenção a patologias obstétricas do que a partos normais.

 

-A enfermeira-parteira: a definição internacional de enfermeira-parteira, segundo a OMS, a CIP (Confederação Internacional de Parteiras) e a FIGO (Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia) é bastante simples: se o programa de treinamento é reconhecido pelo governo que credencia a parteira a exercer suas atividades, aquela pessoa é uma parteira (Peters 1995). Geralmente essa pessoa é uma competente prestadora de serviços de obstetrícia, especialmente treinada para a assistência ao parto normal. Entretanto, existem grandes variações entre países em relação ao treinamento e tarefas das parteiras. Em muitos países industrializados, as parteiras trabalham em hospitais, sob a supervisão  dos obstetras. Em geral isso significa que a assistência ao parto normal é parte da assistência de todo o departamento de obstetrícia, estando portanto sujeita às mesmas regras e condutas, com pouca distinção entre gestações de baixo e alto risco.

O efeito da definição internacional de enfermeira-parteira é o reconhecimento da existência de diferentes programas de treinamento de parteiras, incluindo a possibilidade de treinamento sem qualquer qualificação anterior em enfermagem, mais reconhecida como “entrada-direta”. Esta forma de treinamento existe em muitos países, e está tendo uma nova onda de popularidade, tanto por parte de governos quanto de candidatas a enfermeiras-parteiras (Radford e Thompson 1987). A entrada direta num programa de enfermeiras-parteiras que ofereça um treinamento abrangente em obstetrícia e assuntos conexos, como pediatria, planejamento familiar, epidemiologia, etc., foi reconhecida como sendo de melhor custo-efetividade por estar centrada nas necessidades das parturientes e seus bebês. Mais importante do que o tipo de preparação para a prática oferecida por qualquer governo é a competência e capacidade da parteira para agir de modo decidido e independente. Por essas razões, é vital assegurar que todos os programas de treinamento de enfermeiras-parteiras protejam e promovam a capacidade dessas profissionais de realizar a maioria dos partos, avaliar os risos e, quando a necessidade local o exigir, manejar complicações do parto à medida que forem surgindo (Kwast 1995b, Peters 1995, Treffers 1995). Em muitos países em desenvolvimento, as enfermeiras-parteiras atuam não apenas em hospitais como em centros de saúde e na comunidade, freqüentemente com pouca ou nenhuma supervisão.Em vários países, em muitas partes do mundo, tenta-se promover a ampliação do papel das enfermeiras-parteiras, incluindo treinamento para salvar vidas (Kwast 1992, O´Heir 1996).

 

- Pessoal auxiliar e parteiras leigas treinadas (PLs): em países em desenvolvimento onde existe uma escassez de pessoal de saúde bem treinado, a assistência em povoados e centros de saúde freqüentemente está a cargo de pessoal auxiliar, como auxiliares de enfermagem/parteiras, parteiras tradicionais ou parteiras leigas treinadas (Ibrahim 1992, Alisjahbana 1995). Em certas circunstâncias, isso pode ser inevitável. Estas pessoas receberam pelo menos algum grau de treinamento, e freqüentemente fornecem a maior parte dos serviços obstétricos na periferia. Utilizando seus serviços, especialmente se forem supervisionados por enfermeiras-parteiras bem treinadas, pode-se melhorar o resultado da gestação e do parto (Kwast 1992). Entretanto, com freqüência seu nível educacional é insuficiente para que executem todas as tarefas acima descritas do prestador de serviços, e seus antecedentes podem fazer com que sua prática seja condicionada por fortes normas culturais e tradicionais, que podem bloquear a eficácia de seu treinamento. Entretanto, deve-se reconhecer que é precisamente está identificação cultural que freqüentemente faz com que muitas mulheres, especialmente em áreas rurais, prefiram seus serviços no momento do parto (Okafor e Rizzuto 1994, Jaffre e Prual 1994).

 

Com base nesses dados, a enfermeira-parteira parece ser o tipo mais adequado e com melhor custo-efetividade de prestador de cuidados de saúde para ser responsável pela assistência a gestação e ao parto normais, incluindo a avaliação de riscos e o reconhecimento de complicações. Entre as recomendações aprovadas pela Assistência Geral do XIII Congresso Mundial da FIGO (Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia), realizado em Singapura em 1991 (FIGO 1991), encontram-se as seguintes:

 

- Para aumentar o acesso às mulheres com maior necessidade, cada função de assistência obstétrica deve ser realizada no nível mais periférico onde for viável e segura.

 

- Para utilizar os recursos humanos disponíveis do modo mais eficiente, cada função dos cuidados obstétricos deve ser realizada pelas pessoas menos treinadas capazes de fornecer tal assistência de modo seguro e eficaz.

 

- Em muitos países, caso se deseje fornecer uma assistência obstétrica eficaz, para e com a comunidade, é necessário um maior grau de apoio às enfermeiras-parteiras e assistentes de enfermagem/parteiras, lotadas em centros de saúde de pequeno porte.

 

Essas recomendações apontam a parteira como o provedor básico de cuidados de saúde na prestação de cuidados obstétricos em centros de saúde de pequeno porte, em pequenas comunidades e no domicílio, e talvez em hospitais (OMS 1994). As enfermeiras-parteiras são os provedores de cuidados primários de saúde mais apropriados para serem responsáveis pela assistência ao parto normal. Entretanto, e muitos países desenvolvidos e em desenvolvimento, não existem enfermeiras-parteiras ou elas somente podem ser encontradas em hospitais de grande porte, onde podem exercer funções de auxiliares dos obstetras.

 

Em 1992, foi publicado no Reino Unido o relatório sobre serviços obstétricos do Comitê de Saúde da Câmara dos Comuns. Entre outras coisas, recomendava que as enfermeiras-parteiras deveriam ter suas próprias clientes e total responsabilidade por elas; também deveriam ter a oportunidade de implementar unidades obstétricas onde realizassem os partos, dentro e fora do ambiente hospitalar (House of Commons 1992).  A seguir foi publicado o relatório do Grupo de Peritos em Obstetrícia “Changing Childbirth” (Department of Health 1993), com recomendações semelhantes. Esses documentos são o primeiro passo para uma maior independência profissional das enfermeiras-parteiras na Grã-Bretanha. Em alguns países europeus, as enfermeiras-parteiras têm total responsabilidade pela assistência à gestação e ao parto normais, tanto no domicílio quanto no hospital; porém em muitos outros países europeus e nos EUA, quase todas as enfermeiras-parteiras (se existirem) trabalham em hospitais, supervisionadas por obstetras.

 

Em muitos países em desenvolvimento, a enfermeira-parteira é considerada a pessoa chave para o fornecimento de assistência obstétrica (Mati 1994, Chintu e Susu 1994). Entretanto, isto não ocorre em todos eles: alguns países enfrentam uma escassez de enfermeiras-parteiras. Especialmente na América Latina, escolas de parteiras têm sido fechadas, devido à suposição que suas tarefas seriam assumidas por médicos. Em alguns países o número de enfermeiras-parteiras está diminuindo, e as que existem estão mal distribuídas: a maioria trabalha em hospitais nas cidades, e não nas áreas rurais, onde está 80% da população e onde, e conseqüentemente, ocorre a maioria dos problemas (Kwast e Bentley 1991, Kwast 1995b). Recomenda-se o treinamento de enfermeiras-parteiras, e que se reflita sobre a localização das escolas de treinamento, para que sejam mais facilmente acessíveis a pessoas de áreas rurais, que têm maior probabilidade de permanecer em suas comunidades de origem. O treinamento deve possibilitar que as enfermeiras-parteiras satisfaçam as necessidades das comunidades a que irão servir. Devem ser capazes de identificar complicações que exigem encaminhamento, mas, se o encaminhamento a um nível mais complexo de assistência for difícil, devem ser capazes de realizar intervenções salvadoras. 

O termo “parteiro” identifica aquele que assiste ao parto, independente da formação.

 

2.  ASPECTOS GERAIS DA ASSISTÊNCIA AO PARTO

 

2.1.                  Avaliação

 

Quando o trabalho de parto inicia-se espontaneamente, em geral as próprias mulheres dão início à assistência, ou mandando chamar a pessoa que irá realizar o parto ou tomando providências para admissão a um serviço de saúde. A responsabilidade do prestador de serviços de avaliar qual a assistência mais adequada no início do trabalho de parto já foi abordada, e a importância do apoio ao longo do trabalho de parto é discutida a seguir. Qualquer que seja o local do parto, é vital estabelecer uma boa relação entre a mulher e o seu prestador de serviços, tenham eles se encontrado anteriormente ou não . A qualidade do acolhimento a uma mulher que procura uma assistência institucional pode determinar o nível de confiança que ela e sua família sentem que podem ter em relação aos seus prestadores de serviço.

Durante todo o trabalho de parto, deve-se avaliar regularmente o bem-estar físico e emocional da mulher. Isto implica medir a temperatura, freqüência cardíaca e pressão arterial, verificar a ingesta de líquidos e o débito urinário, avaliar o grau de dor e a necessidade de apoio. Este monitoramento deve ser continuado até o final do processo de parto.

A avaliação do bem-estar da mulher também inclui a atenção à sua privacidade durante o trabalho de parto, respeitando sua escolha de acompanhantes e evitando a presença de pessoas não necessárias na sala de parto.

2.2.                 Procedimentos de Rotina

 

No momento de internação num hospital ou centro de saúde, a preparação para o parto freqüentemente inclui vários procedimentos "de rotina", como medir a temperatura, freqüência cardíaca e pressão arterial, e administrar um enema, seguido pela tricotomia total ou parcial dos pêlos pubianos.

Os primeiros três procedimentos, medição e registro da temperatura, freqüência cardíaca e pressão arterial, podem ter implicações sobre o resultado final do parto, e portanto poderia influenciar o seu manejo. Esses procedimentos de rotina não devem ser eliminados, mas  devem ser apresentados e explicados à parturiente e ao seu parceiro. A verificação da temperatura a cada 4 horas, de acordo com o partograma da OMS, é importante, porque um aumento de temperatura pode ser um sinal precoce de infecção, e portanto pode levar ao tratamento precoce, especialmente no caso de trabalho de parto prolongado com membranas rotas; isto pode evitar a sépsis. Ocasionalmente, a elevação de temperatura pode ser um sinal de desidratação.

 

A verificação da pressão arterial nos mesmos intervalos é um item importante para aferir o bem-estar materno. Um aumento súbito na pressão arterial pode indicar a necessidade de apressar o parto ou transferir a parturiente para um nível mais complexo de assistência.

 

Os enemas ainda são largamente utilizados porque supostamente estimulam as contrações uterinas e porque um intestino vazio facilita a descida da cabeça. Acredita-se também que reduzem a contaminação e, portanto, a infecção da mãe e do bebê. Entretanto, são incômodos e apresentam um certo risco de lesão intestinal. Embora algumas mulheres peçam um enema, muitas outras consideram-nos constrangedores. Dois estudos randomizados controlados (Romney e Gordon 1981 Drayton e Rees 1984) verificaram que, com o uso de enemas, a taxa de eliminação involuntária de pequena quantidade de fozes não se altera durante o primeiro estágio, mas diminui durante o nascimento. Sem um enema, a maioria dos casos desta eliminação de fezes é leve e mais fácil de limpar do que a que ocorre após um enema. Não foram detectados efeitos sobre a duração do trabalho ou sobre infecção neonatal ou infecção da incisão de episiotomia.

 

Presume-se que a tricotomia (Johnston e Sidall 1922, Kantor et al 1965) reduza a infecção e facilite a  sutura, mas não existem evidências em favor dessa suposição As mulheres sentem desconforto quando os pêlos começam a crescer, e o risco de infecção não diminui. O uso rotineiro pode inclusive aumentar o risco de infecção pêlos vírus do HIV e da hepatite tanto para o parteiro quanto para a parturiente.

 

Em conclusão, a verificação da temperatura, freqüência cardíaca e pressão arterial é uma observação e  não uma intervenção, e faz parte da avaliação contínua durante o trabalho de parto. Tem um papel claro na assistência, pois podem indicar a necessidade de alterar o curso de ação num determinado parto. Entretanto, só são possíveis em algumas situações. Os últimos dois procedimentos-enema e tricotomia- há muito tem são considerados desnecessários, e somente devem ser realizados a pedido da mulher. Não existe documentação, e muito menos estudos sobre esses procedimentos de rotina no caso de partos domiciliares. Também não existem evidencias que a sua necessidade no domicílio seja diferente da necessidade no hospital.

 

 

2.3.