Andrea – nascimento de Rafael

Hoje eu decidi contar meu parto. É uma historia simples e delicada, mas que mudou radicalmente a minha vida me tornando uma pessoa muito melhor. Talvez porque hoje seja dia das mães e eu já chorei de emoção varias vezes agradecendo a Deus a oportunidade de vivenciar esta experiência maravilhosa da maternidade. Cada olhar doce, cada babada amorosa do meu menino me desmanchou o coração por todo dia. Não que eu não receba o carinho dele todos os dias ou que não tenha o mesmo valor, mas porque hoje me pôs a pensar e comemorar a vida.

O Rafael nasceu por cesárea numa quinta-feira à noite exatamente no dia em que completava 40 semanas de gestação – 28 de outubro, dia de São Judas Tadeu.

Foi tudo muito rápido e simples como toda cesárea deve ser. Graças a Deus não aconteceu nenhuma complicação e meu bebê veio ao mundo em perfeitas condições de saúde. 3.010 kg e 49 cm.

Talvez não seja uma forma muito “fashion” de nascer já que hoje em dia se fala muito de parto normal, vaginal, humanizado e etc e tal, mas foi o jeito que meu filho veio ao mundo e que garantiu sua vinda de maneira segura (o Rafa estava sentado). Por isso talvez este relato não desperte muito interesse em algumas pessoas que se fixam mais no procedimento, no parto em si do que na magnitude da maternidade. Mas, enfim, ai vai minha historia:

Eu fiz tudo direitinho, como manda o figurino. Esperei o momento certo, a idade certa. Como sempre quis um parto normal procurei pela internet e encontrei quem me orientasse na busca do médico ético (um parteiro). Fomos a todos de uma pequena lista de profissionais e nos decidimos pelo Dr. Marcos Tadeu Garcia. Com todos exames feitos e ácido fólico diário começamos nossa empreitada. Mesmo tendo feito tudo direitinho não fiquei livre da terrível experiência do aborto. Perdi meu primeiro bebê com 11 semanas.

Quatro meses depois engravidei do Rafa. A esta altura já tinha me dado conta de certos abusos e exageros com relação ao discurso inflamado do parto humanizado e me afastei das listas de discussão que pregavam fervorosamente o parto vaginal abominando a cesárea. E talvez tenha sido isto que me garantiu uma piração mais amena na hora de administrar a frustração por não ter tido condições de parir meu filho naturalmente.

Me considero uma pessoa privilegiada por ter tido uma cesárea mais humana (pra não usar o termo humanizado tão relacionado ao parto natural)

Depois de um ultrassom que acusava pré-centralização (placenta ficando velhinha) corremos todos pra maternidade.

Ficamos todos juntos na sala de pré-parto, meu marido, meus pais e minha irmã.

Fui caminhando pra sala de cirurgia. Não tive um único sinal de parto. Nem dilatação, nem tampão, contração, enfim, nada. Nunca senti tanto medo na minha vida. Estava muito nervosa. Meu queixo batia sem parar. Consegui que não me amarrassem a mesa de cirurgia (eu tinha pavor que isto acontecesse), fiquei com as mãos livres enquanto ouvia o barulhinho do bisturi e via a fumaça subindo. Parece que durou uma eternidade.

A gente sempre ouve o termo que precisamos cortar o cordão umbilical de nossos filhos para deixá-los voar, mas foi exatamente neste momento que o laço maior se fez. Ao ouvir o choro do Rafa pela primeira vez fui tomada de uma emoção que não é possível descrever.

Nesta hora clarearam uma janela que tem na sala de parto e minha família pode acompanhar os primeiros momentos de vida do Rafa. Meu marido, é claro, estava presente e ajudou a enfermeira a dar o primeiro banho sob a admiração dos avós e da tia pelo vidro momentos depois de nascido, na sala de cirurgia. Meu marido acompanhou e filmou os primeiros cuidados do nosso bebê e esteve com ele o tempo todo.

Logo depois recebi meu bebê nos braços, do jeito que dava, ali deitada. Finalmente nos conhecemos e pudemos ficar um bom tempo ali abraçados. Nunca vou me esquecer do cheirinho dele! Eu não conseguia parar de chorar. Foi simplesmente sensacional!

Fiquei sabendo esta semana pelo Dr. Marcos (6meses depois) que fiquei uma hora na recuperação anestésica. Pra mim foram apenas alguns segundos que eu mal percebi passarem, pois fiquei amamentando meu bebê junto do meu marido e isso fez muita diferença.

Depois disso fomos nós três, pai, mãe e filho, juntos pro quarto.

É claro que a recuperação da cesárea não é simples nem tão pouco indolor. Mas hoje, especialmente hoje, dia das mães, não faz a menor diferença.

Eu não sei exatamente o que significa a palavra empoderada, nem tenho aqui um dicionário que me dê a definição do termo. Sei apenas que não quero este adjetivo. Sou simplesmente mãe (se é que pode ser simples ser mãe). E é isto que eu desejo a todas as mulheres. Ter uma maternidade plena, intensa e feliz. Ter suas crias saudáveis, com segurança e dignidade independente de suas escolhas na hora do parto. Que suas escolhas sejam conscientes e principalmente respeitadas pelos profissionais que as assistem. E se chegar o momento em que não puderem escolher que tenham sabedoria e segurança pra seguir adiante e deixar que os médicos façam o melhor pelos seus filhos.

Pra quem teve a coragem e a paciência de chegar até aqui neste texto tão longo, minhas sinceras desculpas por ter sido tão extensa. É que hoje foi um dia muito especial pra mim e eu estou realmente inspirada.

Agora, longe do calor dos acontecimentos, tudo parece muito simples, mas na realidade deve-se juntar a toda esta história muita pimenta, emoção e sentimento (haja coração pra chegar até aqui). Pra mim é como se encerrasse um longo e difícil processo de digestão desta cesárea e fico contente em poder por pra fora e compartilhar com vocês. Quem sabe ajude alguém numa situação parecida.

Obrigada,

Andrea