As primeiras 24 horas do bebê
Depois de nove meses na barriga da mãe, chega a hora de conhecer o mundo e
ganhar o carinho de toda uma família. O primeiro dia de um recém-nascido é
uma aventura deliciosa e CRESCER passou 24 horas na maternidade para
mostrar o que acontece com ele. Acompanhamos os “passos” de Mateus, que
nasceu no dia 12 de outubro


Ana Paula Pontes, Bruna Menegueço e Thais Lazzeri

O dia do nascimento de um filho é uma mistura de emoção, felicidade e muita, muita
expectativa – e você começa a sonhar com ele logo que o resultado do exame de gravidez
dá positivo. Basta saber que um filho está por vir para que a gente comece a imaginar
como vai ser a carinha dele, sonhe com as suas gargalhadas, projete a profissão… E não
pare de contar os dias para tê-lo no colo! A escolha do hospital é feita, o tipo de parto,
combinado, e tudo parece sob controle. Mas, como é o primeiro dia na vida de um bebê?
A seguir você vai conhecer minuto a minuto dessa rotina e, assim, ficar mais tranquila por
saber tudo o que acontece com seu recém-nascido na maternidade – mesmo quando ele
não está ao seu lado. Para contar como são essas primeiras 24 horas, CRESCER
acompanhou o nascimento de Mateus, filho de Carla Pinhassi dos Santos, 39 anos,
psicóloga, e de Flávio Verissimo da Costa, 36, psicanalista, em uma maternidade de São
Paulo no feriado do dia 12. Ele não é filho único, já tem dois irmãos: Mariana, 12 anos,
que é filha do primeiro relacionamento da mãe, e Rafael, 4 anos. “Não importa se é o
primeiro ou o terceiro filho. A emoção nunca é igual”, conta a mãe. A seguir, toda essa
emoção, os exames e as descobertas de um momento mais do que especial.
Agradecimentos: Hospital São Luiz (SP) e equipe médica

{20h36}

Já fazia sete horas e Carla estava em trabalho de parto no hospital. A noite de lua
minguante e sem muitas estrelas corria fresquinha do lado de fora da maternidade. Na sala
do parto, estrelas coloridas piscavam no teto. Era a cromoterapia, que tentava acalmar os
pais. Mas foi só o choro potente de Mateus, pouco depois das 20h30, que os deixou
aliviados. Com 2,935 quilos, nascido de parto normal, ele estava saudável e só parou a
choradeira ao ouvir a voz dos pais. Como parecia um pouco arroxeado (um indicativo de
baixa temperatura), primeiro teve de ser aquecido com toalhas para então ficar bem
pertinho da sua família.
O choro é um sinal de que o pulmão do bebê está trabalhando direitinho. Se ele não
chorar ao nascer, pode ser sinal de que a saúde não esteja bem. Na maioria dos casos,
basta o médico reabilitá-lo usando balão de oxigênio para que retome as atividades
normais.

{23h35}

Os tios (todos muitos babões) chegaram animados às vésperas da meia-noite. E uma nova
seção de fotos começou – cada tio tinha sua própria máquina! Eles conheceram Mateus do
lado de fora do berçário. Depois, quando o bebê vestiu a roupinha escolhida há três meses
pelos pais (um macacão bege, de plush), os tios deram mais clicks.

{0h15}
O ritmo dos acontecimentos desacelerou, e o cansaço alcançou a todos. Flávio pediu à
enfermeira que não levasse o bebê no quarto porque, depois de horas acordada, a mãe
conseguiu descansar. Ele despediu-se do filho no berçário e foi se deitar. Ao lado de Pietra
e Nicolas, nascidos também naquele dia, Mateus adormeceu em menos de dez minutos…
Mas a calmaria não durou muito tempo!


{1h05}
Quando um bebê começou a chorar, os demais acompanharam, incluindo Mateus, e as
enfermeiras se revezaram para cuidar de todos. Ele apertou as mãozinhas, afastou a
manta, fez careta e, por meia hora, ficou assim, inquieto.

{4h20}
O resto da madrugada seguiu tranquilo e, depois das 4 horas, Mateus entrou pela primeira
vez no quarto dos pais. Estava tão dorminhoco que não viu ninguém – nem percebeu a
mudança de berço. Os pais também dormiam, mas despertaram logo, animados – dá para
imaginar outra ocasião para acordar tão feliz no meio da madrugada? Ele não estranhou a
voz dos pais.

Desde a gestação o bebê escuta. O recém-nascido reconhece vozes familiares,
principalmente a da mãe. Um exame fundamental é o teste da orelhinha, feito no segundo
ou no terceiro dia, que detecta se o bebê é sensível a estímulos sonoros.

{5h50}
Quando a enfermeira entrou no quarto para levar o bebê de volta para o berçário, quem
fez cara feia foi o pai. Deitados juntos, Flávio estava se deliciando com o filho nos braços.
Ele nem tinha sono! Quem tem coragem de negar um pedido desses?

{6h40}
Logo que amanheceu, Mateus foi levado ao berçário para receber a visita da pediatra. A
enfermeira aproveitou para trocar a fralda. Ele parecia sentir tanta preguiça que nem
reclamou. Uma hora depois, foi examinado. Trocado (e bem quentinho), voltou para o
quarto dos pais. Nessa hora, Mateus dormia.

Nos primeiros dias de vida o bebê faz um cocô de cor escura, chamado mecônio, que é
resultado de tudo o que ele ingeriu ainda na barriga da mãe.


{8h30}
Mateus estava em um sono tão profundo que levou uma hora para acordar e mamar.
Estava faminto. Foi uma delícia ouvir aquele barulhinho que os bebês fazem quando
mamam!
Amamentar logo no primeiro dia não é algo que acontece com todas as mães. O
importante é não desistir e tirar todas as dúvidas com as enfermeiras.

{9h00}
Você conhece algum avô ou avó que não é coruja? Etty, 66 anos, e Delpino, 71, pais de
Flávio, chegaram exatamente no primeiro minuto que a visita foi liberada – eles já estavam
aguardando ansiosos na recepção. Etty pegou o neto enquanto o avô ficou pertinho, com
os olhos cheios de lágrimas. Mateus enxergou bem os avós. A visita durou 1h30. Depois,
mãe e filho adormeceram.

O recém-nascido não enxerga com nitidez. A visão se desenvolve progressivamente. Ele
consegue ver coisas contrastantes, como luzes, e o que está bem próximo, entre 20 e 25
cm do seu rosto.

{11h15}
Mateus acabou de ser registrado no cartório que fica na maternidade. Ganhou um
sobrenome da mãe e outro do pai: Mateus dos Santos Verissimo. A certidão chegou no dia
seguinte.

Para registrar, é preciso levar uma declaração do hospital, a identidade do pai (se ele for
registrar) e a certidão de casamento. Se os pais não forem casados, é obrigatória a
presença do pai no cartório. A certidão fica pronta em um dia.

{13h10}
À tarde, de volta ao berçário enquanto os pais andavam pela maternidade, Mateus
adormeceu ao lado de Juan, que fazia fototerapia.
Bebês que nascem com icterícia, uma doença comum que deixa a pele amarelada, têm de
fazer banho de luz (a fototerapia). Em poucos dias o bebê melhora.


{14h42}
Mateus recebeu a visita do avô materno, Antonio, 63 anos, e da esposa, Marisa, 68. No
colo do avô, ele chamou a atenção de todos quando espirrou!
O espirro é comum. Assim o bebê elimina o excesso de líquidos que, por acaso, engoliu ou
inalou durante o parto.

{15h07}
Não são apenas as mães de primeira viagem que têm dúvidas. Enquanto a enfermeira
Elisbete repassou os procedimentos do banho, Carla escutou atenta. “Não me lembrava de
alguns detalhes”, afirmou. Mateus nem chegou a entrar na água. Ele deu aquele resmungo
de fome e só parou quando a mãe o amamentou. Assim ficou por cerca de 40 minutos. A
enfermeira orientou os pais a colocá-lo para arrotar assim que terminasse a mamada.

{16h23}
Hora do banho no quarto! E o pai logo se candidatou. Apesar de não ser o primeiro filho,
era perceptível a apreensão em dar banho em Mateus. Para deixar o clima mais tranquilo,
ele colocou uma música bem calma. O pequeno chorou bastante ao tirar a roupa. Bastou a
mãe passar a mão em sua cabecinha e soltar umas palavras para ele parar. Flávio fez
todos os passos do banho direitinho.


{17h00}
Que mãe não baba pelo filho? Carla não se cansava de dizer o quanto o bebê estava
cheiroso e lindo dentro de um macacão vermelho de linha com um casaquinho branco.
“Ainda está um pouco grande”, disse. Logo, Mateus se recostou no colo dela e fechou os
olhos. Dormiu horas seguidas.

Nos primeiros três dias de vida, o bebê é muito sonolento. Como tem uma reserva de
gordura, ele não sente tanta fome, dorme quase o tempo todo e, assim, os horários para
mamar são bem irregulares.

{20h05}
O corre-corre de São Paulo invadiu o quarto de Mateus. Junto com os irmãos do bebê,
Mariana e Rafael, que foram conhecê-lo depois da aula, chegaram mais cinco visitas, entre
elas a avó materna, Lola, 61 anos, e a bisavó, Santa, 86. Os pais, ansiosos para a chegada
dos filhos mais velhos, observaram atentos a reação das crianças com o caçula. Mariana
estava visivelmente emocionada. “Ele é muito fofo”. Rafael, timidamente, disse: “Ele parece
eu [sic]”. “É mesmo, filho”, afirmou Carla. Depois de 24h seguindo Mateus, nos
despedimos da família para que eles curtissem aquele primeiro momento de cumplicidade
entre irmãos de tantos outros que ainda estão por vir.

Fontes: Cássio Régis, anestesista; Cleide Dias Ramos, auxiliar de enfermagem; Elisbete
Silva Alves, enfermeira; Flávia Ribeiro, fonoaudióloga; Gelsomina Colarusso Bosco,
pediatra; Isabel Pradas Cacere, pediatra; Marcos Tadeu Garcia, ginecologista e obstetra;
Mauro Borghi, pediatra; Samantha Bernal da Costa Vollet, pediatra, todos do Hospital São

{20h39}
É hora dos primeiros exames feitos pela pediatra, ainda na sala do parto, como o teste de
Apgar. Longe do colo da mãe, Mateus voltou a chorar e Flávio, pai coruja, correu para ficar
ao lado do filho. Com uma máquina fotográfica em punho, ele registrava cada momento
do bebê: era a décima foto em menos de três minutos!
O teste de Apgar é realizado no primeiro minuto de vida e repetido a cada cinco. São
avaliados: frequência cardíaca, respiração, musculatura, reflexos e cor da pele. Cada item
tem uma nota, que vai de 0 a 2. Se a soma de todos der um valor menor que 7, o teste
precisa ser repetido a cada cinco minutos até alcançar a nota mínima.


{21h35}
Depois de ter tirado notas 8 e 9 no teste de Apgar, e estar bem acordado, Mateus voltou
para a mãe e o obstetra avisou que ela podia amamentar. Carla estava (muito!) calma. A
experiência de dois partos anteriores fez a diferença. “Ele sabe o que fazer”, disse a mãe. E
o bebê, instintivamente, aconchegou-se no peito dela e mamou por pelo menos 20
minutos, sem paradas. “Olha como ele está se divertindo”, afirmou. Saciado, Mateus foi
para o colo do pai, que o apresentou à sala de parto.

A amamentação, de preferência até duas horas depois do parto, dá segurança e
tranquilidade ao bebê. Ele também recebe o colostro, uma forma de leite mais nutritiva,
presente nos primeiros dias do pós-parto. Além de proteger o intestino do bebê, ajuda-o a
funcionar.

{22h30}
Carla está se recuperando na sala de parto e nem ela nem Flávio querem ficar longe do
bebê, mas, assim como os demais recém-nascidos, ele precisou passar por mais testes no
berçário central, como o do reflexo vermelho. Mateus não gostou e reclamou um bocado.
Além do exame físico, a pediatra fez o teste do reflexo vermelho. Ela jogou uma luz em
direção ao centro da pupila, que bate no fundo do olho da criança e reflete na cor
avermelhada, que é o resultado normal. Quando há algum problema, o bebê passa por um
oftalmologista com urgência.


{22h50}
Depois que os exames mostraram que estava tudo em ordem com Mateus, chegou a hora
do primeiro banho, que aconteceu no berçário com a companhia do pai. A enfermeira
avisou que a pele do bebê poderia escamar um pouco. Ele estranhou a água e fez cara
feia. Não demorou muito para relaxar as perninhas. Flávio aproveitou para tirar mais fotos.
A pele do bebê, ao nascer, é protegida por uma substância chamada vernix caseosa.
Quando ele toma o primeiro banho, ela é removida e a pele pode descamar. É normal.

{23h17}
Já sequinho, a enfermeira limpou o coto umbilical com cotonete e álcool 70º e tirou
algumas medidas – o pai soube ali que o filho tinha 49 cm. Ele ainda recebeu uma
picadinha com vitamina K na coxa, um procedimento padrão no hospital para evitar
hemorragia. Esse momento de tensão desapareceu em instantes. Flávio gargalhou quando
a enfermeira usou uma escova para pentear os poucos fios de cabelo do filho.