Isis Siqueira N. de Araujo – nascimento de Lucas

Amado filho Lucas,

Desde que você nasceu que eu queria relatar como foi o seu parto e pra isso eu precisava de algumas horas tranqüilas pra sentar e escrever. Amanhã faz 2 anos que você chegou, e como até hoje eu ainda não consegui parar pra fazer isso, vou escrever o relato do nosso parto aqui no escritório mesmo.

Desde criança eu sonhava em ser mãe, me imaginava cuidando do meu filho e sempre quis que meu filho nascesse de parto normal. Quando eu e o papai resolvemos engravidar, com 4 anos de casados, vimos que o caminho não seria tão fácil. Encontrei a lista das Amigas do Parto, onde aprendi muito e conheci a querida Ana Cris, que me indicou o querido Dr. Marcos Tadeu Garcia.

Demorei alguns meses pra engravidar e todo mês eu chorava quando menstruava ou quando recebia um resultado negativo no exame de gravidez. Com 5 anos de casados conseguimos engravidar, após 9 meses de tentativas e a melhor fase da minha vida estava apenas começando.

Foi tudo bem no pré-natal, até que descobrimos que você estava pélvico, por volta de 35 semanas, mas com 37 semanas você virou e nós ficamos mais tranqüilos.

Nós estávamos prestes a pegar as chaves do nosso novo apartamento e isso fez com que atrasasse os preparativos do seu quartinho e perto de 38 semanas o Dr. Marcos percebeu que eu estava cheia de coisas pra fazer e que não estava deixando você chegar. Eu disse pra ele que no próximo final de semana eu deixaria, pois já teria feito tudo o que precisava fazer e você entendeu muito bem a mensagem!

Completamos 39 semanas na sexta-feira, no sábado caiu o tampão mucoso e no domingo pela manhã já comecei a sentir as primeiras contrações. Fui almoçar na casa da vovó Lourdes e a tarde começamos a cronometrar as contrações. Como ainda estavam espaçadas, fomos à igreja, toquei na missa, depois fomos à quermesse. Na missa as contrações já estavam bem doloridas e a Cíntia, sua madrinha, já ia cronometrando conforme minha expressão mudava. Na quermesse eu quis comer churrasco e vinho quente, mas já estava começando a ficar complicado estar no meio das pessoas, pois todos me olhavam com cara de espanto quando vinham as contrações e eu quis ir embora. Liguei para o Dr. Marcos, expliquei como eu estava e ele pediu pra eu dar mais um tempo em casa. Quando achei que o negócio estava ficando feio, liguei novamente pra ele e ele pediu pra irmos para o Santa Catarina.

Chegamos no hospital à meia-noite, e eu estava com apenas 1 cm de dilatação. O Dr. Marcos achou melhor voltarmos pra casa. Chegando lá o papai foi dormir um pouco e enquanto isso eu andava pelo apartamento, quando vinham as contrações eu apoiava os braços no encosto do sofá e procurava posições que ajudassem a suportar a dor. Também fiquei bastante tempo no chuveiro pra relaxar.

Às 3:00 hs da manhã eu não queria mais ficar em casa sozinha. Chamei o papai, ligamos para a Ana Cris e para o Dr. Marcos e fomos para o Santa Catarina. Graças a Deus era de madrugada e não pegamos trânsito, pois o trajeto foi difícil devido às dores. O papai não sabia se ia rápido pra chegar logo ou devagar pro carro não balançar muito. No meio do caminho vomitei o que tinha comido e me sujei toda.

Mas nessa hora nada me importava. O que eu mais queria era estar com as pessoas que iriam me acompanhar no parto, em quem eu muito confiava e receber logo meu filho.

Às 3:30 hs eu estava com 3 cm de dilatação e resolvemos que iríamos fazer a internação. Iam me encaminhar para os procedimentos pré-parto mas eu disse que combinei com o Dr. Marcos que não iria fazê-los e não tive problemas. Logo a Ana Cris chegou, o que me deixou mais aliviada e fomos para a LDR (Labor Delivery Room – Sala de Pré-Parto e Parto). Logo fui pro chuveiro, alternando entre a posição de pé, sentada e sentada na bola, mas as dores estavam cada vez mais fortes.

Às 5 e pouco o Dr. Marcos chegou e logo após chegou o Dr. Armindo, assistente dele. Eu me lembro que fiquei muito aliviada com a chegada do Dr. Marcos! Lembro-me que dei uma bronca nele, dizendo que ele demorou, mas eu nem imaginava que o dia para nós estava apenas começando!

Eu havia combinado com o Marcos (papai), com a Ana Cris e com o Dr. Marcos que pretendia resistir ao máximo sem anestesia e que não era pra me oferecerem, eu pediria se achasse necessário. Também combinei que meu pedido só deveria ser atendido se fosse feito no intervalo das contrações e não durante.

Acho que perto das 9:00 hs eu não estava mais agüentando e pedi anestesia. Porém, o Dr. Rodrigo, anestesista da equipe do Dr. Marcos, só foi chegar por volta das 10:00 hs. Eu me sentia meio derrotada por já estar “arregando”, mas eu queria curtir o meu trabalho de parto e daquele jeito não estava conseguindo. Eu acho que estava com 5 ou 6 cm de dilatação nessa hora.

Até então, além das dores, eu estava sentindo muito sono, mas um sono tão grande que era difícil manter os olhos abertos pra conversar com as pessoas. Eu imaginei que a analgesia iria aliviar as dores e assim eu poderia dormir um pouco.

Quando a analgesia começou a fazer efeito, eu nem acreditei! Que alívio! Só que com as dores, meu sono também foi embora! Aí fiquei andando pra lá e pra cá, estava bem disposta e animada com esta nova etapa do TP. Logo eu soube que a vovó Silvia, a titia Sibelle e a madrinha Cíntia estavam na sala de espera e eu fiquei muito contente com isso.

Passado um certo tempo, as dores começaram a voltar, mas de forma diferente: eu sentia uma pressão muito forte nas costas e nem as massagens da Ana Cris ou do papai aliviavam. Quando eu não estava mais agüentando, pedi um reforço na analgesia, sempre deixando claro que eu queria continuar andando e queria sentir meu filho sair pelo canal de parto.

Não sei de quanto em quanto tempo o Dr. Marcos fazia o toque. O meu maior medo era a dilatação estacionar, mas graças a Deus isso não aconteceu, apesar de estar num ritmo mais lento que o “normal”. Eu estava dilatando em média 1 cm a cada 2 horas. Eu sabia que você ia nascer, mas eu queria que nascesse naquele dia, pois era o último dia de maio, mês que eu gosto por vários motivos.

O papai foi muito companheiro o tempo todo. Eu me sentia bem me apoiando nele de pé, abraçados e era gostoso ficar assim “dançando” com ele. O Dr. Marcos até filmou esta cena, pois achou bonito.

Engraçado que durante o TP eu falava que não sabia que era assim, que eu não iria querer outro filho e o Dr. Marcos falava que não era pra eu pensar nisso naquela hora, que depois eu ia esquecer toda aquela dor. E realmente, não é que já estou querendo passar por tudo isso de novo!

Em algumas das vezes que eu me deitei na cama para o toque, eu percebi o formato da minha barriga muito estranho, totalmente disforme e até comentei com o pessoal, mas me disseram que era normal.

Num determinado momento, quando eu já estava com dilatação total ou quase total (não me lembro mais), o Dr. Marcos resolveu estourar a bolsa, pois disse que você não estava encaixando. Ele estourou e nem me lembro de ter visto o líquido amniótico, mas acho que estava claro.

Começamos a tentar posições para o parto e como pra mim qualquer posição era incômoda pois a dor nas costas estava insuportável, ele decidiu pela posição semi-reclinada na cadeira de parto, pois segundo ele esta posição estava colaborando com a sua descida.

Eu já estava posicionada para o parto, quando o Dr. Armindo foi escutar o seu coraçãozinho e vimos que estava por volta de 60 bpm (durante todo o TP estava por volta de 140). Ele mudou o aparelhinho de posição várias vezes, mas era uma bradicardia mesmo. Ninguém precisou me falar nada, eu já senti que alguma coisa não ia bem. Começou a maior agitação no quarto. Era gente trazendo instrumentos pro Dr. Marcos, entraram várias pessoas que eu nem sabia quem eram… então o Dr. Marcos me encarou e disse: “Seu bebê precisa nascer agora! Vamos lá! Força!”. Eram umas 18:00 hs.

O Marcos, a Ana Cris e o Dr. Armindo estavam do meu lado me dando força. Quando vinha a contração eu fazia toda força que eu tinha, e buscava forças do profundo do meu ser pra que você nascesse logo. O Dr. Marcos fez uma episiotomia e o Dr. Armindo pediu permissão pra me ajudar e fez uma pequena manobra de Khristeller, com toda a delicadeza. Acho que na 2ª ou 3ª força você nasceu, mas nem pude vê-lo, pois em um segundo o cordão foi cortado e você foi levado correndo pra sala da neonatologia. Estes foram os piores momentos de minha vida. Como eu não ouvi o seu choro, a primeira coisa que consegui dizer foi: “Ele está vivo?”, ao que o Dr. Marcos respondeu: “Claro, não tá ouvindo o choro dele?”

Aí eu consegui ouvi-lo chorando e chorei aliviada! Depois de alguns minutos, os mais longos da minha vida, trouxeram você pra eu e o papai te vermos e você ficou uns 2 minutinhos no meu colo, mas nem pude vê-lo direito de tanto que eu chorava. Infelizmente não me deixaram amamentar naquela hora, pois você teve Apgar 3/8, e precisava ficar em observação.

Eu imaginava que iria fazer um escândalo se levassem meu filho de mim nessas primeiras horas, mas eu estava tão esgotada que não conseguia raciocinar muito bem, nem muito menos agir. A chuva de hormônios do parto juntamente com as drogas da analgesia e o cansaço de passar tantas horas em TP me deixaram meio “grogue”!

A Ana Cris disse que você foi o primeiro bebê que ela viu nascendo olhando pra lua, pois você estava em posição O.S. (occipto-sacro) e isto provavelmente foi o que me causou tantas dores e um trabalho de parto difícil. Mas mesmo assim não me arrependo de ter desejado um parto normal e de ter passado por todas as dores. Hoje me sinto mais forte, mais capaz, mais mulher.

Me levaram pro meu quarto, eu recebi os cumprimentos dos meus familiares que estavam lá, e dormi um pouco. Perto das 23:00 hs enfim eu pude ter meu filhote em meus braços! Você logo pegou o peito e mamou com vontade e eu me senti a mulher mais realizada deste mundo!

Como eu estava meio dopada, pedi que naquela noite você ficasse no berçário pra eu poder descansar e a partir do dia seguinte iríamos ficar em alojamento conjunto. Hoje me arrependo de ter feito isso, pois imagino que você deva ter chorado muito e sentido a minha falta, mas tive até medo de machucá-lo, tal era meu cansaço e sono.

Amanhã você completa 2 anos, todos os dias dorme pertinho da mamãe e do papai, mama muito e sou muito feliz por ser sua mãe e por ter um filho especial como você!

Quero agradecer:

A Deus, que permitiu que eu te concebesse, gerasse e que você nascesse saudável.

Ao meu marido Marcos, que sempre acreditou em mim, me apoiou e me acompanhou durante o pré-natal, o trabalho de parto, o parto e me apóia até hoje.

À Ana Cris, que me ensinou muita coisa e me ensinou principalmente a acreditar em minha capacidade de parir.

Ao Dr. Marcos, que foi sempre atencioso, carinhoso e competente e ficou todo o tempo me acompanhando e me passando segurança.

Ao Dr. Armindo e Dr. Rodrigo, também muito carinhosos e competentes.

A todas as participantes das listas de discussão, que muito me ensinaram e que fazem um trabalho precioso de conscientização e troca de experiências que certamente ajudam a muitas mulheres.

Sem vocês certamente eu não teria realizado o meu sonho de ser mãe e de ter um parto normal!

Isis, mãe feliz do príncipe Lucas, 2 anos 30/05/2006