Relato de Ligia Sanchez – nascimento de Maria Alice

Antes de relatar o parto propriamente dito, para que os leitores entendam a dimensão da maravilha que foi tudo isso, preciso fazer uma pequena retrospectiva:

Como fui uma das últimas da família e das amigas a ser mãe, já tinha ouvido muitas histórias, algumas arrepiantes, sobre o tão aguardado e assustador momento do parto/cesariana. Por conta disso, ainda antes de conseguir convencer meu marido a ser pai, comecei a procurar um médico que fosse a favor do parto normal, mas de verdade, não daqueles que mudam de idéia na última hora…

Foi ótimo eu ter começado a procurar com antecedência, porque demorei mais de seis meses para chegar a uma indicação. Para mim parecia absolutamente incrível que numa cidade como São Paulo, não existisse nenhum profissional que se declarasse pró-parto, mas essa foi a realidade que enfrentei nas muitas consultas que marquei pela cidade. Alguns nem acreditavam que eu estivesse falando de parto quando ainda nem estava grávida.

Finalmente, consegui o telefone do Dr. Marcos Tadeu Garcia e marquei uma consulta. De rotina. Precisava saber quem era esse médico, se era verdade a opção profissional… depois de tanto trabalho, eu já não acreditava muito. O que aconteceu quando fui conversar com ele, acho que todas as mulheres que participam deste grupo sabem, fiquei encantada. Era tudo o que eu procurava!

Comecei a tomar ácido fólico, e fiz os exames que ele pediu. E quando voltei para levar os resultados já tinha certeza de que estava grávida (ainda não tinha nem atrasado a menstruação). Quando disse isso, o Dr Marcos riu e disse que, já que eu tinha tanta certeza, ia pedir o exame (beta HCG), mas me deu dois pedidos, um com data e outro para que eu fizesse depois. Obviamente ele não acreditou no meu sexto sentido, mas como se trata de um médico realmente especial, não me contrariou.

Fiz o exame nesse mesmo dia e o resultado, claro, foi positivo. Voltei lá, devolvi o segundo pedido e nós rimos muito. Tive que esperar quase um mês para fazer o primeiro ultra-som, com 6 semanas!

Apesar de tão rápida, esta gestação não foi das mais fáceis. Tinha 33 anos e já estava acima do peso. Tive que fazer dieta todo o tempo. Tenho hipotireoidismo desde os 15 anos e ovários policísticos desde os 19. Família de diabéticos e hipertensos… No 3º mês tive sangramento nasal por causa da pressão alta. Comecei a tomar anti-hipertensivo… Nesse meio tempo, vendi meu apartamento, que dividia com meu marido e … 5 gatos! Fui morar na casa da minha mãe, compramos uma casa antiga que ficou muito tempo em reforma e trabalhava quase 10 horas por dia. À noite, íamos comprar material de construção.

Cansei de levar bronca porque minha dieta não funcionava bem, mas pelo menos com o bebê estava sempre tudo ótimo. Maria Alice crescia bem e tinha todos os parâmetros dentro do esperado. Só nas ultimas semanas é que o ultra-som mostrou uma volta de cordão no pescoço, o que parece ser comum. O último mês foi terrível, porque o Dr Marcos me proibiu, terminantemente, de trabalhar, por causa da pressão que descontrolou. Meus pés nunca desinchavam, nem de manhã.

Como sempre, o Dr Marcos explicava tudo o que acontecia e o que poderia acontecer. Ele nunca disse, mas eu percebi que estava preocupado. Tanto que quando ele disse que seria melhor tentar induzir o parto descolando as membranas, eu nem pensei duas vezes. O mais importante naquela hora era ter minha filhinha comigo.

O descolamento doeu muito, muito mesmo. Foi feito no dia 04/02, uma quarta-feira. Dr Marcos disse que as contrações deveriam começar entre 2 e 7 dias depois disso. No sábado à noite senti algo estranho, não era uma cólica mas parecia um peso no assoalho da pelve, como se o bebê estivesse se ajeitando e empurrando. Não parecia uma contração, mas como a primeira vez é sempre novidade, vai que era assim mesmo… Liguei para o Dr Marcos, mas ele não se impressionou muito. Me pediu para caminhar devagar e não ir deitar, para não interromper, caso fosse o início das contrações. Não era.

Segunda-feira, 09/02, voltamos à consulta, não tinha mais sentido nada. Mesmo assim, decidimos não fazer novamente o descolamento. Eu achava que não ia ser necessário e, confesso, não estava muito a fim de passar por aquele sofrimento outra vez, se não fosse realmente necessário…

Madrugada de Terça, 10/02, 3:30 hs. Acordei com uma cólica fraca, bem parecida com uma cólica menstrual, mas que passou logo. Fiquei de orelha em pé. Meio feliz, meio apavorada… Fiquei ali, quietinha, no escuro, os olhos bem abertos. Depois de um tempinho, outra vez. Fraca. Nada que parecesse aquelas descrições das mães e avós.

Fiquei curtindo aquele momento, sozinha, meu marido dormindo, a casa inteira dormindo. A cada tanto vinha aquela cólica, que foi aumentando em tempo e intensidade, mas ainda não era nada desesperador. Comecei a contar os minutos de duração, de intervalo. Sabia que tinha chegado a hora, mas ainda ia demorar bastante. Às 5:00 hs, acordei o pai, que, como eu previa, entrou em pânico. Depois percebeu que eu estava tranqüila, feliz, curtindo e acabou relaxando. Ele fazia massagem nas minhas costas, quando vinha a cólica e ficou com o relógio, marcando tudo com muita eficiência.

Perto das 6 da manhã eu fui tomar banho e liguei para o Dr. Marcos. Não quis ligar antes, porque já tínhamos conversado sobre esse momento umas mil vezes e estava tudo acontecendo como ele descreveu. Sabia que ia demorar. Não quis ligar de madrugada… Mais tarde, na suíte de parto, ele contou que essa noite, finalmente, tinha conseguido dormir 6 horas seguidas, o que foi importante porque estava muito cansado… Foi difícil não rir.

Como as contrações ainda estavam bem espaçadas, ele me pediu para esperar um pouco mais, em casa. Lá pelas 7 e pouco da manhã, me ligou e disse para ir para o Hospital. Pra variar, nessa hora, aconteceram os problemas de filme, carro que não pega, nenhum táxi no ponto… demorei um pouco pra sair e pegamos bastante trânsito até chegar à Pro Matre. Quando chegamos, já era quase 9 horas e as contrações estavam bem mais longas e intensas. Mesmo assim, eram totalmente suportáveis.

A enfermeira que me examinou quando cheguei disse que tinha 3 cm de dilatação. Fui direto para a suíte de parto e tive que “brigar” com a enfermeira para que ela não colocasse o soro… Fiquei sozinha por alguns minutos, até que meu marido entrou. Nessa hora, comecei a perder um pouco de líquido, de cor meio verde claro. As contrações agora já eram importantes e enquanto duravam, não dava pra pensar em mais nada. Quando passava, era como se nada estivesse acontecendo.

Dr. Marcos chegou às 10:30 hs. Eu tinha 4 cm de dilatação e estava tranqüila. Louca pra entrar na banheira, que tinha sido um dos motivos para escolher a Pro Matre. Foi a minha única frustração. Como os batimentos cardíacos do bebê estavam baixos e, dependendo da posição, baixavam ainda mais, Dr Marcos preferiu monitorar o tempo todo e com isso, tive que ficar na cama, ligada ao aparelho. Ele parecia tranqüilo, mas depois confessou que estava bem preocupado.

A situação, afinal, não era das melhores: hipertensa, bem acima do peso, uma volta de cordão no pescoço do bebê e mecônio (o líquido verde claro…). Tenho certeza de que qualquer outro médico teria feito uma cesariana, com pelo menos três bons motivos…

Às 11:30 hs, com 6cm de dilatação e contrações “legais”, pioradas pela posição que não é a melhor para enfrentá-las, a pressão querendo subir, Dr Marcos me perguntou se eu queria anestesia. Eu quase ri. Esse homem sabe tudo! Claro que eu queria, o mais rápido possível!

Depois da intervenção milagrosa do Dr Seráfico, tudo mudou. Não sentia mais dor nenhuma, então ficamos lá, esperando, contando causos, rindo, os “meninos” foram comer um lanche… não fosse pelo aparelhinho ligado à minha barriga e pela cara que faziam os médicos quando olhavam para aquilo, dava pra pensar que era uma reuniãozinha informal. Apesar da apreensão deles e do meu marido, eu estava super calma e, depois que não senti mais dor, totalmente relaxada.

Minha filha estava quase aqui, quase nos meus braços.

Meu marido ficou do meu lado, segurando minha mão enquanto eu “trabalhava”. Eu não olhava pra ele, mas com certeza ele estava apavorado. Nunca gostou de sangue… mas agüentou firme! Depois de uns minutinhos, me pediram pra não forçar mais, a cabecinha já tinha saído e o Dr Marcos estava ajeitando pra não lacerar muito a parede. Pronto! Maria Alice nasceu às 2:20 hs.

Dr Marcos havia avisado que, por causa dos batimentos baixos, ele preferia que o bebê fosse logo atendido, por isso não fui a primeira abraçá-la. Ela estava ótima. Limparam, aspiraram o nariz, colocaram na balança e aí, só aí, ela chorou (triste sina de toda mulher, chorar na balança…).

A mamãe e o papai choraram muito antes! A mamãe chorou por muito tempo. A emoção era tanta que não tinha voz, só conseguia chorar. Estava terminada uma etapa. E do jeito que eu sempre quis. Foi fantástico. Quando a trouxeram pra mim, com aquela carinha de bebê mais delicioso do mundo, eu estava totalmente maravilhada.

Levei só dois pontos, não precisei de episiotomia. O papai ajudou a dar o primeiro banho, meio trêmulo, depois levou nossa princesa para a avó e as tias verem, lá no corredor. Quando voltou, já estava quase tudo arrumado. Uma enfermeira então me explicou como se faz pra amamentar e eu tentei, juro. Mas não funcionou muito…

Mas isso já é outra história. Maria Alice mamou até os 10 meses, e não tive nenhuma rachadura no bico. Hoje, ela está com 1 ano e dois meses e é pura alegria de viver. Linda e simpática. A maior maravilha que pode acontecer na vida de uma pessoa… Queremos repetir a dose ano que vem.