Tânia – nascimento da Veridiana

Parto normal após cesárea e miomectomia subserosa.

Tânia, 40 anos, e Veridiana (15 dias hoje, 19 de março de 2007)

Fico olhando, olhando minha pequena Veridiana, dormitando no meu colo após uma deliciosa e relaxante mamada, lembrando do parto e refletindo sobre como esses bebês fofos além da conta sabem direitinho o que fazer na hora P. Seu nascimento, de parto normal, foi tão tranqüilo, tudo perfeito, sem intercorrência nenhuma. Quanta sabedoria armazenada neste pequeno ser! Grávida, a gente se prepara, lê tudo sobre parto normal, fica com milhões de caraminholas na cabeça, preocupa-se, tem medo, fica feliz, fica triste, com sono, excitada, sentindo-se a poderosa, a insegura, plena de beleza, ou seja, tudo ao mesmo tempo agora, e o bichinho ta lá, sossegadão dentro da sua barriga, e já nasce sabendo nascer! Como pode???

Meu primeiro filho, João Antônio, nasceu de uma provável “desnecesárea”, após uma gravidez quase perfeita, tirando o fato de a bolsa ter-se rompido às 35 semanas e 5 dias de gestação. A pressa de um obstetra que provavelmente (como sempre que eu ia às consultas) tinha uma lista enorme de pacientes agendadas para aquele dia selou o destino do nascimento do meu pequeno João e batata: “- Cortem-lhe a barriga!”, foi a ordem dada para que João nascesse, após apenas seis horas de bolsa rota, nos mesmos moldes do que diria a Rainha de Copas, da Alice no País das Maravilhas, que ordenava, a torto e a direito, sem nem sequer pensar nas conseqüências: “- Cortem-lhe as cabeças!”. A “desculpa” para a cesárea: quando eu tinha contrações muito fortes, o coraçãozinho dele desacelerava além do que seria esperado… Sei lá se era isso mesmo… E nunca vou saber…

Creio, porém, que recuperamos, com a amamentação e com, logicamente, todo o amor que uma mãe e um pai podem dar, o trauma que deve ter sido para o João a hora do seu nascimento. João mamou até quase os dois anos e hoje, aos 4 anos e 8 meses, é uma criança linda, saudável, vivaz, doce e inteligentíssima!

Mas na minha segunda gestação prometi que tudo seria diferente. A começar por mim mesma. Sempre fui meio cuca fresca, desencanada, e, quando estava grávida do João, achava que parto normal era simplesmente normal. Na hora certa, tudo correria bem. Pelas vias da normalidade eu saberia o que fazer, por instinto. Confesso que, como mãe de primeira viagem, eu me preparei muito mais com os cuidados com o bebê após o nascimento do que com a hora do parto em si. E deu no que deu.

Mudei, também, de obstetra. Aprendi que não adianta ficar na orelha do médico exigindo um parto normal se ele não estiver comprometido com você, se não jogar no mesmo time. E achei o Dr. Marcos Tadeu Garcia, ao ler um dos inúmeros relatos de parto como este que estou fazendo. Dr. Marcos é um obstetra totalmente comprometido com a naturalidade dos partos sem, no entanto ser xiita de parto normal. Uma pessoa que batalha junto com a gestante por um parto normal, ou natural, sem nenhuma interferência, de acordo com as normas da OMS – “Eu só estou lá para aparar o bebê”, costuma dizer o Dr. Marcos. E uma pessoa absolutamente confiável caso surja algum imprevisto na hora P e se tenha de fazer algum atendimento de emergência.

E foi este mesmo Dr. Marcos que descobriu, na 29ª semana de gestação de Veridiana, uma dilatação precoce do meu colo uterino. Eu, neurótica, achando que nesse período a nenê já deveria estar cefálica, mas sentindo-a atravessada no meu ventre, recebo naquela consulta a boa notícia de que ela não só estava cefálica, como encaixada e, de “brinde”, ganho a história da dilatação: 2 centímetros e colo afinado. Recomendação, ou melhor, ordem médica: repouso absoluto. “Você vai ficar pendurada no lustre de cabeça pra baixo, senão sua filha nasce antes do tempo”, disse o Dr. Marcos. Uma notícia dessas, em pleno nove de janeiro, acaba com o verão e as férias de qualquer um. Mas fazer o quê? Preparei-me psicologicamente para parar com tudo e me metamorfosear de gestante a incubadora da minha ainda muito pequena, porém apressada, Veridiana…

E para lidar com uma criança de 4 anos e meio, João, grudadíssimo numa mãe que teria, a partir de então, de arrumar brincadeiras apenas “na horizontal”. Até que nos viramos bem, eu e o João, sem contar com o cada vez mais paizão que foi o Luiz, meu marido. Durante meu repouso eles ficaram ligadíssimos, viajaram juntos pra praia nas férias, estão cada dia mais amigões.

Todos os motivos passam pela cabeça quando se está com uma dilatação tão precoce. Argumentei comigo mesma que meu desejo de parto normal era tão intenso que eu, inconscientemente, estava acelerando o processo… Que os exercícios de relaxamento que eu vinha aprendendo por intermédio da antiginástica poderiam ter “relaxado” demais o meu assoalho pélvico e permitido a dilatação… Na verdade, porém, o real motivo nunca vou descobrir, já que, com o João, meu colo ficou fechadinho até um dia antes de ele nascer. Mesmo em meio a tantas especulações mirabolantes do meu cérebro, enfrentamos a situação, que teve um final mais do que feliz.

Aí, 14 dias após o início do repouso, ou seja, na 31ª semana de gestação, outra notícia, não tão animadora: a dilatação havia aumentado para 3 centímetros; o colo, pelo que me lembro, estava um pouco mais fino e a nenê havia descido um pouco mais. Saí da consulta meio paralisada, com medo até de andar e o bebê escorregar pelas minhas pernas. Mais repouso, repouso, repouso, período do qual procurei ver o lado bom: creio que jamais, na minha vida, terei outra oportunidade de descansar tanto! Li vários e atrasados livros, ouvi CDS, li mais e mais assuntos sobre parto enquanto João estava na escola. Botei o papo em dia com vários amigos e curti Veri na minha barrigona. Talvez a própria Veridiana estivesse pedindo, como mencionou uma amiga, um tempo a mais para ela, já que, antes da pausa obrigatória, eu estava numa correria louca, no trabalho e em casa.

Outra graaaaannnnndeeeee vantagem na situação: a cada consulta o médico aumentava minhas perspectivas em relação ao parto normal. Um dia, mostrou um gráfico da evolução do parto e garantiu: “Você já ganhou 50% de um parto normal – seu colo está dilatado em 3 cm, está fino como uma pele, a nenê já desceu, e está encaixada”. Todo esse processo, segundo ele, num trabalho de parto sem nenhum imprevisto, pode levar horas de contrações para ocorrer, e eu já havia “conseguido” “meio” parto normal sem nenhuma dor! Não era, afinal de contas, uma vantagem? Outra boa notícia no meio de tudo isso era que, provavelmente, como dizia o obstetra, meu parto seria rápido.

Restava, então, me resguardar o máximo possível para preservar Veridiana na minha barriga o tempo necessário para ela amadurecer e evitarmos a UTI neonatal, oxigenação, incubadora artificial, e todas as complicações de um prematuro extremo. E foi o que fiz, por quase dois meses que, confesso, passaram super-rápido.

O PARTO

Até que chegou o grande dia! Ou melhor, a grande madrugada! Na última consulta, dia 27 de fevereiro, uma terça-feira, Dr. Marcos disse que eu poderia interromper o repouso no domingo, dia 4 de março, quando, pelo ultra-som, Veridiana completaria 37 semanas de gestação (pela data da última menstruação, a virada da semana ocorria todas as quartas-feiras, ou seja, ela completaria 37 somente na quarta-feira seguinte, dia 7 de março). Saímos, eu e meu marido, felizes do consultório pela imensa vitória: Veridiana estava a poucos dias de ser considerada a termo! Para um bebê que poderia ter nascido com 29 semanas caso a dilatação precoce não fosse descoberta a tempo, estávamos, nós e o médico, soltando fogos e correndo para o abraço da torcida!

Passei a semana em repouso e, no sábado, a um dia do fim do descanso, confesso que já dei uma relaxada. Fiquei pela manhã batendo papo com uma vizinha na casa dela, sentada e já não mais na horizontal, recebi a visita de uma amiga minha à tarde e, de noite, minha enteada, Marina, e seu namorado, André, além de um amigo, Marcelo, estavam em casa e preparamos um jantar.

Sábado, noite não só de mudança de lua, lua cheia, como de eclipse total da lua! Numa dessas, já relaxada, levantei várias vezes para ver o eclipse. E especular, logicamente, sobre a relação entre a virada da lua e o nascimento dos bebês.

Tudo correu bem no jantar, todo mundo foi dormir, inclusive Marina e André, que, providencialmente, pousaram em casa neste dia e puderam ficar com o João quando tivemos que correr pra maternidade. Até que, às 4 hs e 30 min da manhã do domingo, acordei com uma dor aguda no fundo da vagina. Fiquei deitada, esperando a dor passar, o que demorou um pouco, e depois fui ao banheiro e acendi a luz. Luiz reclamou do clarão repentino na cara dele e eu falei: “Aconteceu alguma coisa. Não sei se a bolsa estourou, mas aconteceu alguma coisa.

Vi apenas uma aguinha rala na minha calcinha, beeeemmm diferente de quando a bolsa do João estourou, que logo virou uma cachoeira entre minhas pernas. Em vez de ligar pro médico – que havia me recomendado um milhão de vezes para eu entrar em contato urgente com ele se sentisse pelo menos 8 a 10 contrações no período de uma hora ou se a bolsa rompesse. Pois bem. Em vez de ligar logo pro médico, na dúvida (achei que poderia ser o tampão, mas o tampão eu já não tinha faz tempo, por causa da dilatação precoce, disse-me depois o Dr. Marcos), deitei e esperei mais um pouco pra ver o que acontecia.

Bastou meia hora. Levantei às 5 horas com uma dor que começava na base da coluna e irradiava-se para todas as costas, voltava para a base da coluna e ia para toda à parte de baixo. Apoiei-me na pia do banheiro e, tentando ficar de pé e caminhar (como a gente lê que alivia a dor das contrações), respirar pela vulva e ficar de boca aberta e língua relaxada (como ensina a antiginástica), falei quase berrando pro Luiz: “Liga pro médico, é contração, é contração!” Esta passou, veio outra mais forte logo depois e junto com ela a cachoeira entre minhas pernas. A bolsa realmente havia estourado. Foi a dor da bolsa rompendo que senti no fundo da vagina, às 4 hs e 30min.

O Luiz bipou pro médico, que em 5 minutos retornou, disse que eu estava tendo contrações, o Dr. Marcos pediu pra falar comigo e eu disse, berrando, do quarto: “Não consigo, fala com ele, fala com ele!” Aí o médico perguntou pro Luiz: “Pró Matre ou São Luiz?” E eu, já enlouquecida, tentando relembrar de tudo o que havia lido e praticado na antiginástica para lidar com a dor das contrações – e no meu caso, sinceramente, elas doeram pra caramba – respondi: “- O que for mais perto!!” No nosso caso, a Pró Matre.

A essas alturas, eu já estava lutando comigo mesma para conseguir tirar a roupa e tomar um banho antes de ir pra maternidade. Sempre pensei que devia tomar um banho antes de parir. Não iria me sentir bem indo “sujinha”, com o suor de um dia, recebendo minha filhota nos braços. Aí teimei no banho, mas também não pude demorar muito, porque não achava posição que aliviasse a dor. Saí do banho e literalmente caí de quatro no chão, apoiada na cama, pois essa posição (que também havia visto em algum lugar) transformava a dor em algo próximo do suportável.

Marina já havia sido acordada pelo Luiz e estava lá, me dando a mão pra eu apertar e os ouvidos para eu berrar a cada contração, enquanto Luiz tirava o carro pra tocarmos pra maternidade. Ainda de quatro, coloquei o vestido, ao fim de uma contração. Ao fim de outra, uma sandália; ao fim de mais uma, outra sandália. No fim da quarta contração, corri pra beijar o João, que dormia como um anjo, apesar dos meus berros. Saí em direção ao carro e ainda fiquei de quatro no chão da cozinha, esperando outra contração passar pra conseguir chegar ao carro. Quando finalmente me instalei no banco de trás, também foi de quatro.

E foi assim, de quatro no banco de trás do carro, entre várias contrações (elas vinham, fortíssimas, a cada dois minutos, pelo menos, creio eu) e berros, que o Dr. Marcos me encontrou, ainda na entrada da maternidade – ele disse que esta cena ficou marcada pra ele, o que realmente confirma aquela história de que nenhum parto é igual ao outro, já que, para uma cena dessas ficar marcada para alguém que já fez milhares de partos, é porque deve ter sido diferente de tudo o que ele já havia visto mesmo. “- Do jeito que você chegou, já em posição de expulsivo, cheguei a pensar que teria de fazer o seu parto no carro”, disse-me ele depois. O fato de ele me recepcionar na entrada da maternidade, chegando até antes de mim, também é exceção. Em trabalhos de partos “normais”, nos quais a dilatação leva horas para ocorrer, Dr. Marcos geralmente encontra as gestantes já instaladas na sala de parto, onde as acompanha até o nascimento, que pode levar horas. No meu caso, porém, dada a gravidade da situação – gravidade no sentido de que minha filha corria até o risco de nascer no carro, no trajeto para a maternidade, por causa da dilatação precoce, etc. – Dr. Marcos já havia me avisado que chegaria até antes de mim, pela grande chance de eu ter um parto muito rápido.

Lembro-me de uma pessoa da maternidade ter me ajudado a sair do carro (logicamente no intervalo entre as contrações, porque durante elas eu simplesmente não deixava ninguém relar a mão em mim), e de eu ter sentando numa cadeira de rodas. Aí fui para uma salinha com o Dr. Marcos e ali fiz outra novela para ele me examinar, já que só conseguia me movimentar no intervalo entre as contrações. Imagino, então, que devam ter sido três: uma para eu sair da cadeira de rodas, outra para deitar naquela cama de exames e outra para finalmente conseguir ser examinada. Enquanto isso, Dr. Marcos preocupado, já que ele sabia que meu parto seria rápido, e aquela resistência minha em eu só deixar que me tocassem entre as contrações poderia significar um parto ali mesmo, na sala de exames, ou a caminho da sala de parto, sei lá.

Mas, mais para meu espanto do que para meu alívio, Dr. Marcos deu o veredicto: “-Dilatação total.” Nossa! Em cerca de uma hora minha dilatação, que já era de 3 cm, pulou pra 10 cm!

Toca eu de novo pra maca e só ouço o Dr. Marcos falando para alguém: ” – Manda o pai se apressar (o Luiz estava cuidando da burocracia da internação) porque senão ele não vê o parto.” É engraçado quando a gente fica deitada numa maca de hospital como você perde a noção de para onde está sendo levada. Só vê portas e mais portas, alguém conduzindo a maca, pessoas de fora da situação te olhando com um ponto de interrogação na testa. Só depois soube que eu estava sendo conduzida pro segundo andar da Pró Matre. E ainda pude pescar um rápido diálogo entre o Dr. Marcos e alguém do hospital: “- Não, ela vai pra sala de parto.” Mais tarde o obstetra me falou o que aquilo havia significado e que eu nem sequer havia me dado conta: a equipe da maternidade queria, não sei por que cargas d’agua, me levar pro centro cirúrgico. Eles chegaram a colocar a maca comigo lá dentro, mas o Dr. Marcos tirou a maca de lá e me levou pra sala de parto. A gente fica tão zureta no meio das contrações que eu nem sequer percebi que havia entrado no centro cirúrgico. Imagina só que desaforo: 10 cm de dilatação, já quase parindo, e eles querendo me levar pro centro cirúrgico??? Vai entender…

Bom, quando chegamos à sala de parto e eu vi que era ali mesmo que eu iria ficar, na hora arreguei: pedi ao Dr. Marcos uma anestesia, embora durante todo o pré-natal eu não tivesse a intenção de ser anestesiada na hora do parto. Vendo meu estado e depois de eu ter soltado uns bons berros no ouvido dele, ele pediu pra chamar o anestesista.

Pedi porque simplesmente não estava agüentando a dor. No meu caso, as contrações vieram cavalares e com um intervalo curtíssimo entre cada uma, desde o início. Na minha cabeça, se eu entrasse num processo de parto normal, sem aquela dilatação precoce e sem rompimento de bolsa, ou seja, se eu ficasse horas tendo contrações, talvez tivesse a chance de “tornar a dor a minha amiga”, como li em algum lugar. E também de liberar acho que a endorfina, que ao longo do processo vai “anestesiando” naturalmente a gestante e ao menos amenizando a dor das contrações. No meu caso foi diferente, porém. Eu sentia, quando ficava de quatro para tentar aliviar um pouco as dores, que alguém estava literalmente me cavalgando.

Tentei relaxar – por meio da “respiração pela vulva” e mantendo a boca aberta e a língua solta – o assoalho pélvico, mas o que notei foi que a minha bacia estava absolutamente rígida. Fiquei com medo de não relaxar pra Veridiana passar e estava realmente sem controle sobre a dor. Luiz, quando ainda estava do lado de fora, colocando aquela roupa de hospital, disse que conseguia ouvir meus berros.

Fiz outra novela para que o anestesista conseguisse me aplicar a anestesia. Não o deixei encostar em mim até o fim de uma contração. Você ali, se contorcendo de dor, e ele ainda exigindo que, quando aplicasse a anestesia, eu teria de ficar absolutamente imóvel… Parece piada…

O fato é que poucos minutos depois, já sem dor, posso dizer que passei a curtir o parto da Veridiana. Aí tudo virou flores. Pude me posicionar com calma na cama de parto; a anestesia, segundo o Dr. Marcos, desacelerou um pouco as contrações e deu tempo de o Luiz chegar pra ver tudo. Aí foi lindo. Quando eu já estava no expulsivo e o Dr. Marcos me mostrou, por intermédio de um espelho, a cabecinha da minha filhota ainda lá dentro de mim, aqueles cabelinhos, aquela cabecinha… ai, ai, ai… Foi emocionante. Veridiana personificou-se ali. E Karlinha, a obstetra assistente do Dr. Marcos, me dando a maior força, passando tranqüilidade, ajudando a falar quando eu tinha as contrações pra eu fazer força, também foi ótima.

Outra “driblada” do Dr. Marcos nos protocolos hospitalares e que foi muito importante para mim foi o fato de ele ter pedido para apagar as luzes da sala, como todos queríamos. À meia-luz tudo adquire um tom mais relaxante e pude ficar tranqüila com o fato de minha Veridiana não ser ofuscada logo que fosse tirada do meu ventre. Resumindo, foi um nascimento tranquilíssimo.

Eu mal ouvia as conversas paralelas – que foram poucas, aliás -, tentando me concentrar ao máximo no nascimento da minha filha: boca relaxada, respiração pela vulva e tudo o mais que eu havia treinado e aprendido por meio da antiginástica. Mesmo anestesiada e sem sentir dor, tentei relaxar ao máximo o assoalho pélvico pra Veri passar com tranqüilidade e eu não correr o risco de sofrer lacerações no períneo. E posso dizer que senti tudo: a cabecinha, os ombrinhos passando. Até que o Dr. Marcos disse: “- Vai nascer!” E, finalmente, Veridiana veio para os meus braços, aninhou a cabecinha no meu peito, ficou de olhão aberto, olhando ao longe, sem chorar, sereníssima.

Como disse anteriormente, ela nasceu já sabendo nascer! Nós, os pais, ao contrário, né? Lógico que choramos, é inevitável não chorar de emoção ao ver aquele bebê lindo e sereno saindo de você, calma e lentamente, e depois nos seus braços. Luiz cortou o cordão umbilical e ela ficou ali, linda e serena, um tempo com a cabecinha apoiada no meu peito. Não tem emoção maior! Aquela coisiquinha toda frágil para uma mãe abraçar, ninar, proteger!

Depois de um tempo, a equipe da maternidade pegou Veridiana e, na sala de parto mesmo, verificou o Apgar (10 e 9, ou 9 e 10, sei lá…), pesou (3,075 kg) e mediu (46 cm) minha filhota. Foi para todos nós e para ela uma vitória e tanto! Nada de incubadora, de UTI Neonatal, de respiração artificial! Havíamos conseguido! Segurei minha filha no meu ventre, da 29ª até a 37ª semana de gestação, em repouso absoluto, até ela estar pronta pra nascer e ela respondeu ao nosso esforço muito bem! Batalhamos juntos, eu, Veri, Luiz e nosso pequeno João que, mesmo sem compreender totalmente o que estava acontecendo pra mãe dele ficar tanto tempo deitada, foi até maduro nos seus quatro anos e meio.

Depois que Veri saiu do bercinho aquecido, ainda na sala de parto, finalmente entregaram-na nos meus braços e, de novo, Dr. Marcos quebrou mais um protocolo, desenrolando Veri daquele charutinho, pois eu queria, como sempre disse, um contato pele a pele com minha filha. Aí ela ficou comigo um bom tempo, uma hora e meia talvez, mamou e eu pude relembrar aquela boquinha linda que os bebês fazem quando estão sugando o peito!

Como Dr. Marcos havia previsto, meu parto seria rápido, dada a minha situação. Entre o rompimento da bolsa, às 4 hs e 30 min da madrugada, e o nascimento de Veridiana, às 7 hs e 54 min, correram 3 horas e 24 minutos. A dilatação total provavelmente ocorreu em menos de uma hora e tudo só não foi mais rápido porque a anestesia desacelerou um pouco o trabalho de parto. Tive apenas uma pequena laceração no períneo e o pessoal da maternidade ainda teve a pachorra de colocar, no diplominha que a Veridiana recebe quando nasce: “Parto normal com episiotomia!”. Até parece!

Quanto à cesárea anterior, feita em 2002 e a retirada de um mioma gigante subseroso, em 1998, eu tinha receio de ambas as cirurgias no meu útero virarem um fantasma para mim durante o trabalho de parto da Veridiana, mas nem me lembrei disso na hora. Nem mesmo quando, para reativar as contrações, Dr. Marcos adicionou uma baixa dose de ocitocina no meu sangue. Eu tinha pavor de ocitocina, porque já havia lido que este hormônio e cesárea anterior não combinam. Em baixa dosagem, porém, não houve problema nenhum.

Um dia, após o fim do repouso e após tudo ter dado certo no nascimento de Veridiana, meu filho João Antônio, vendo televisão, perguntou para mim: “- Mãe, o que é um sonho que se realiza?” Expliquei para ele que eu tinha um sonho, de ter dois filhos lindos como ele e Veridiana, e este sonho se realizou. Aí eu perguntei para ele se ele tinha algum sonho e ele disse: “- Sim: eu quero que tudo volte ao normal.”

Sim, filho. O meu repouso (que exigiu sacrifícios seus também) acabou, Veri nasceu bem, da maneira que eu sonhei, resgatei para mim e para ela, para quando ela tiver filhos, a capacidade de dar à luz normalmente (já que eu nasci de cesárea) e, aos poucos, tudo está voltando ao normal. Logo Veridiana vai estar toda serelepe por aí, brincando com você, e estaremos juntos, novamente, passeando pra todo canto, como sempre fizemos!